sexta-feira, 15 de março de 2013

Um Ano em Rondônia (parte 2/5)

...continuação
 
OS TRABALHOS DE CAMPO

As atividades de campo eram verdadeiras expedições no sentido estrito da palavra. Como líder do projeto, eu deveria pensar em tudo, da alimentação a equipamentos de coletas de amostras, dos meios de transportes, combustível e peças de reposição da caminhonete e barcos a medicamentos, dos pontos de acampamento móvel ou fixo a controle de pessoal via folhas de ponto, avaliação do andamento e qualidade dos trabalhos. Sem esquecer a prospecção mineral, como o objetivo central das explorações na floresta amazônica.
 
Os locais de pesquisa variavam de áreas próximas, aonde eu conseguia ir e voltar ao alojamento no mesmo dia, a, mais comumente, destinos afastados, para os quais exigiam logística complexa. Muitas vezes o acesso incluía caminhonete até a beira de um igarapé, barco com motor de popa por horas rio abaixo ou acima, caminhada por quilômetros pela selva até o centro base do projeto a ser limpo e aberto.
 
Meus colegas geólogos chegaram a liderar atividades em áreas ainda mais distantes. Um deles me convidou a sobrevoar a área onde seria desenvolvido novo projeto. A ideia era investigar a topografia, a hidrografia e levantar possíveis pontos de acampamento. Seguimos de avião bimotor eu, ele, o piloto e outro colega. A ventilação natural vinha com o abrir das janelas laterais. A aeronave possuía asas abaixo das janelas, prejudicando a visibilidade do terreno de quem sentava no banco de trás, como eu. Os dois da frente comentavam o que se passava lá embaixo e eu nada via. Ao saber do meu problema, o piloto não teve dúvidas. Inclinou bruscamente o avião noventa graus para a direita a fim de liberar minha visão e depois, mais bruscamente ainda, para a esquerda, também facilitando para o outro colega. E perguntava aos berros: “viram agora?”. Nos segurávamos para não despencarmos pela janela. E o piloto se acabava de rir. A visão da floresta daquela baixa altitude impressionava pela riqueza dos detalhes.
 
Os técnicos de mineração desempenhavam a função de coordenar a topografia, a exatidão da coleta das amostras de solo segundo a malha pré-determinada, acondicioná-las, etiquetá-las e recolhê-las depois de concentradas na bateia. Utilizávamos o trado manual, espécie de enorme saca-rolha, para a coleta de amostras de solo a um metro de profundidade. Contrariando a lógica de coletar amostras dos sedimentos de corrente, a empresa transnacional, via o gerente incompetente, nos obrigava ao vexame daquela metodologia ineficaz para minerais pesados. Até os peões, capatazes e técnicos de mineração, sabiam de cor e salteado que, continuando assim, jamais concluiríamos nada.
 
Saíamos para trabalhar bem cedo, quando o sol mal penetrava pelas árvores. Os peões, os capatazes, os técnicos de mineração se dirigiam rumo à abertura e demarcação topográfica de picadas, à coleta de amostras através do trado. Acompanhado de outro peão, armado de cartucheira para eventuais surpresas ou para caçar o jantar, eu seguia pelas picadas demarcadas, mapeava o terreno, coletava amostras significativas. Levávamos apenas bolachas e enlatados de conserva, as chamadas “araras”, para comer. Bebíamos água diretamente dos igarapés límpidos e retornávamos ao acampamento antes das 16h.
 
Frequentemente a picada cruzava igarapés ou rios que não davam pé. Meu parceiro improvisava pinguelas com o terçado a fim de não molharmos as roupas, demais materiais ou mesmo evitar eventuais surpresas com piranhas ou sucuris. Ou então entrávamos de roupa e tudo, atravessando com água no pescoço ou nadando quando não alcançávamos o fundo. O mais difícil era preservar a bússola e a caderneta de campo.
 
Pior situação, encontrávamos diante de lagoas e alagadiços, dos quais não conseguíamos enxergar o contorno e a profundidade. Normalmente de águas pretas, de fundo lodoso e entupido de galhos secos, com folhas flutuantes, esses obstáculos nos obrigavam a caminhar atolados até o peito de água e lama, lentamente, desviando de árvores maiores, atentos a alterações do fundo, empurrando sólidos com a barriga e pernas, sem a mínima ideia de onde púnhamos o pé, apreensivos pela indesejada aparição de sucuris. O parceiro apimentava o clima de suspense, contando estórias tenebrosas sobre ataques do doce ofídio em áreas alagadas como aquela. Eu disfarçava o pavor, tentando pensar em outras coisas, acelerando o passo através da viscosidade. Mas essas travessias duravam horas. Ao retornarmos à terra firme, arrancávamos as botas e as meias, expondo os pés a qualquer nesga de sol. A pele ficava esbranquiçada e rachada pelo excesso de umidade. Eu recolhia os detritos acumulados dentro das roupas, meias, botas, enquanto me sentia aliviado de, pelo menos daquela vez, tudo ter corrido sem sustos maiores.

Durante as chuvas torrenciais, eu tinha que fazer acrobacias para anotar as observações na caderneta de campo sem molhá-la. Às vezes o companheiro de trilhas improvisava uma cobertura com folhas para que eu pudesse escrever. De nada valiam as capas impermeáveis. O calor abafado impedia que vestíssemos mais roupa. Caminhávamos debaixo do aguaceiro e nada do corpo e das roupas, absolutamente nada, ficava seco, exceto a caderneta de campo. As chuvas nos encharcavam, e encharcados ficávamos até o retorno ao acampamento, a menos que nos deparássemos com uma clareira ensolarada, raridade em meio à densa floresta.

Os peões, capatazes, e até os técnicos de mineração, insistiam em me tratar por “doutor” e “senhor”. Eu explicava que não era médico, nem tampouco senhor de idade. A maioria era mais velha do que eu. Poderiam me chamar pelo nome e me tratar por “você”. Nem sempre eu os convencia na primeira tentativa, mas não os deixava em paz até acabar com aquele anacronismo.
 
Não faltavam casos de abusos trabalhistas contra os peões que se matavam de trabalhar na selva. A empresa estrangeira orientava os chefes a marcarem nas folhas de ponto dos peões menos horas do que as efetivamente trabalhadas no campo. A injustiça e a humilhação vinham acompanhadas de ameaças de demissão por justa causa e de sujar a carteira de trabalho dos que não concordassem, impedindo-os de conseguirem emprego nas redondezas.
 
Segundo eles, a transnacional estrangeira cometia aquele crime com frequência. Eu jamais admitiria tal absurdo. Orientei todos a marcar, a partir daquele momento, as horas efetivamente trabalhadas nas folhas de ponto.
 
Mesmo assim, algo ainda me incomodava. E as horas trabalhadas e não pagas nos projetos anteriores? A transnacional embolsaria aquele roubo sem mais nem menos? Os gringos aumentariam os lucros impunemente à custa de mais miséria dos trabalhadores braçais? Chamei o capataz mais confiável, depois os demais. Pedi sigilo absoluto, sob o risco de sobrar feio para todos. Até então, a transnacional estrangeira impunha trabalho de 12 horas por dia, mas marcação de apenas 10 horas nas folhas de ponto. Eu simplesmente orientei que invertessem a situação. Que trabalhassem 8 horas por dia e marcassem 10 horas. Assim o mesmo total de sempre de horas a serem pagas não chamaria atenção do patrão. Os capatazes se animaram com a minha proposta, repassaram-na aos peões, com a recomendação de boca de siri.
 
A novidade passou a valer na manhã seguinte. O ambiente no acampamento ficou mais alegre.
 
Em projeto envolvendo cerca de cem funcionários, contávamos com trator abridor de estradas. O projeto prometia ser de longa duração acarretando isolamento dos peões da vida social. Propuseram que aproveitássemos o trator para abrir uma clareira na mata do tamanho de meio campo de futebol, perto do acampamento, para os peões se divertirem. Passei a ordem ao tratorista. Providenciei a bola de futebol, as traves foram erguidas e já tínhamos atividades aos finais de tarde.
 
Implementei outras medidas para tentar humanizar os projetos. As caças e pescas pelos peões mais aptos empolgavam nossos jantares de fim de tarde. Diante de qualquer problema de saúde, impossível de resolver no acampamento, eu convocava o barqueiro a levar o paciente a atendimento médico na vila da empresa. Suspendia os trabalhos tão logo chovesse demais e as picadas alagassem.
 
Os atrasos no andamento do projeto, mais que justificados em inúmeros relatórios, irritavam o gerente geral, aquele do QI de ameba. De nada adiantava eu explicar pelo rádio, eu ali no meio do mato, ele lá na inseparável sala com ar condicionado na vila principal. Eu respondia seriamente ao mala-sem-alça enquanto fazia caretas ao microfone para delírio dos peões em volta. Às vezes, doido para chutar o pau da barraca, levantava a voz e insinuava que ele, o gerente incompetente, desconhecia as condições de trabalho, as características da floresta, os imprevistos físicos e humanos. Ou então, impaciente de ouvir tanta besteira, simulava qualquer defeito no rádio, cortando sumariamente a comunicação.

UM BAITA SUSTO

Apesar da relativa tranquilidade de caminhar nas trilhas da região, eu andava demais e gastava bastante energia. Chegava a percorrer vinte quilômetros ou mais em cada dia, no fim dos quais as pernas bambeavam e todo o corpo pedia por repouso.
 
Num dado final de tarde, fiz a besteira de ignorar o esgotamento físico e quase mudei para o andar de cima. Tinha marcado com o barqueiro de me encontrar na margem do rio. Naquele dia eu devo ter caminhado quase trinta quilômetros, sem contar os obstáculos que saltei, atolei, desviei, agachei, aumentando, e muito, o desgaste. Atingimos a margem bem antes do horário marcado, cansados, famintos, impacientes de esperar o barqueiro. Achei melhor atravessar o rio a nado mesmo. O parceiro topou e lá fomos nós.
 
Embalei os apetrechos mais sensíveis em saco plástico e, de roupa, botas e tudo, entrei na água. O início da travessia, em águas calmas e próximas à margem, não ofereceu resistência e as braçadas me fizeram avançar alguns metros, ainda que lentamente. Foi assim até atingir o canal do rio. A partir dali a história foi outra. A correnteza me desviava violentamente. A velocidade das águas, tanto na superfície como abaixo, entontecia e desequilibrava, me impedindo de progredir. O corpo e as roupas pesavam cada vez mais. As pernas, fatigadas de tanto andar na floresta, não obedeciam. Os braços mais se debatiam que propriamente praticavam movimentos sincronizados. Comecei a ser levado pela correnteza, a afundar. E o pânico impediu de o cérebro funcionar corretamente. Balançava desesperadamente os braços.
 
Afundei várias vezes. Engoli muita água. Vi trechos do filme contendo pessoas e fatos mais marcantes da minha vida. Parte de mim queria se entregar, outra teimava em resistir. Entre movimentos histéricos, avistei meu parceiro, já seguro na margem desejada. Ele me fazia sinais atrapalhados, tentando me orientar. Mas eu não entendia nada.
 
À medida que descia a correnteza, me aproximei de galhos pensos vindo de árvores da margem, observação que me desanuviou a mente. Me preocupei apenas em manter a flutuação, sem gastar energias. Esperei um galho mais firme e conveniente, me esticando o mais que pude, e o agarrei. Pronto. Já não afundava ou era arrastado pela correnteza. Me acalmei, ou quase. Não alcançaria a outra margem através daquele galho. Não tinha outra opção a não ser esperar pelo barqueiro. Permaneci pendurado no galho envergado, com o corpo parcialmente submerso no rio. Meu parceiro, também esgotado, me observava com o olhar esbugalhado. E o barqueiro chegou, não sei quanto tempo depois, me resgatando para a margem tão sonhada.
 
Não sei quem estava mais assustado. Se eu, que quase partira desta para uma melhor, o barqueiro ou o parceiro de caminhada, ambos mudos e estupefatos. Minha visão ainda se mantinha turva, pois meus óculos tinham afundado nas águas do rio. Algum peixe deveria estar nadando de óculos. Até voltar à vila da empresa, onde guardava óculos reservas, sofri um bocado tentando contornar a miopia.
 
Por pouco, muito pouco mesmo, eu não estaria aqui para contar a história. E por absoluta falta de bom senso. O mais simples e óbvio bom senso.
continua...

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