terça-feira, 12 de março de 2013

Um Ano em Rondônia (parte 1/5)


OS ANTECEDENTES

Eu ficara meses desempregado após pedir demissão do emprego na Bahia. Permaneci a maior parte desse tempo em São Paulo, intercalado com estadias no Rio de Janeiro com colega de universidade. Além de dar voltas sem compromisso, entregava currículos em dezenas de empresas de mineração na capital fluminense.

O Brasil entrava em recessão profunda e as coisas não andavam nada bem. Se eu quisesse realmente me manter na área, deveria encarar o que aparecesse de suportável. E a pequena experiência estreitava meu poder de barganha.

Quase deu torcicolo de tanto me virar para as cariocas do centro da cidade. Eu babava com as morenas e mulatas economizando tecidos pelo calor. Me deslumbrava no metrô, ônibus, calçadas, recepções, secretarias. Às vezes esquecia os currículos e o que procurava dentro do andar do edifício, ficando de queixo caído com os colírios. As danadas aproveitavam para judiar um pouquinho mais. Esnobavam. Mas aquelas maravilhas podiam tudo.

E foi justamente no Rio de Janeiro que acertei com uma transnacional de mineração que atuava no recém-emancipado estado de Rondônia. Os gringos escolheram uma razão social verde-amarela a fim de esconder quem realmente mandava na empreitada, a associação de uma empresa inglesa e outra canadense.

Para liderar projetos de pesquisa mineral de cassiterita, consegui salário aceitável e despesas pagas de hospedagem, alimentação, lavanderia, transportes.

Marquei o embarque para o início de 1982, tendo que deixar o Rio, voltar a São Paulo e preparar a bagagem definitiva para Rondônia.

Fui recebido no aeroporto de Porto Velho por funcionários da empresa, que me embarcaram em avião bimotor em direção à base local da empresa, contando com pista improvisada de terra para a aterrissagem. A pista irregular, o avião pequeno e frágil, o risco de ventanias e tempestades, tão comuns na Amazônia, causaram apreensão, mas o dito cujo pousou sem sustos.

Mas não seria naquela vila principal da empresa o meu destino final. Após a recepção de praxe por aquele que seria o gerente regional dos projetos, entrei em caminhonete e fui levado à segunda vila, também artificialmente incrustada pela empresa na floresta, menor que a primeira, porém bem mais vistosa e aconchegante.
 

A SEGUNDA VILA

A caminhonete me deixou em frente à suíte que se tornaria minha residência daí em diante. Tratava-se de quarto com duas camas de solteiro, banheiro privativo, ar condicionado, armários, criados-mudos, o suficiente para solteiros, como as demais suítes geminadas daquele conjunto alongado.

As duas transnacionais que compunham a empresa com fachada brasileira importaram todo o racismo dos países de origem na hierarquia das instalações, em pleno interior da Amazônia. Impunham rígidas separações físicas entre os funcionários conforme os níveis dos cargos, especificamente em três categorias bem distintas. O estrato dos profissionais superiores, de nível universitário e chefias, no qual eu me encaixava; o dos de nível médio; o da camada de trabalhadores braçais e não qualificados em geral.

As instalações superiores contavam com suítes confortáveis para os solteiros, casas amplas e equipadas com o essencial para os casados e a família, piscinas, quadras esportivas, clube social espaçoso com bar e mesas de jogos, refeitório com comida boa, farta e variada, serviços de limpeza e lavanderia, caminhonetes novas e individuais com tração nas quatro rodas. Ali residiam os geólogos, técnicos de mineração, engenheiros, gerentes setoriais, médicos, professores, entre outros membros da elite.

Nem precisaria descrever as instalações para os trabalhadores braçais, onde a empresa estrangeira os tratava como bestas de carga. Viviam amontoados em dormitórios fétidos, apertados, lotados. Nada de áreas de lazer sadias, apenas o famigerado espaço noturno de danças com direito e muita bebida alcoólica de má qualidade. Arrisquei frequentar o local, mas os colegas da casta superior me desaconselharam, alegando que eu poderia não voltar vivo da noitada, reproduzindo o preconceito semeado para empresa. Nada mudara desde 1500.

Quando não estava acampado na floresta e dormia no alojamento de solteiro, me encontrava com os colegas no refeitório durante o almoço, o jantar e depois, na sede social do clube, aonde quase todos da casta superior se dirigiam à noite, por absoluta falta de alternativas. A cidade mais próxima se situava a centenas de quilômetros por estradas precárias, enlameadas e recheadas de atoleiros durante as chuvas, cobertas de poeira e buracos durante a estação seca. E a cidade de Ariquemes não merecia esse sacrifício. Pequena, suja, miserável, mais parecia vilarejo perdido no tempo, com casebres e armazéns de madeira. Fundada somente cinco anos antes, Ariquemes não contava com atrativos.
      

A VILA PRINCIPAL

A cerca de trinta quilômetros, a vila principal seguia os mesmos moldes da segunda vila, apesar de mais antiga e feia, de estar mais próxima das minas, oficinas, poluição sonora e do ar. Comportando maior número de funcionários, especialmente quem atuava nas diversas fases da lavra de cassiterita, geólogos ou não, a vila incluía as principais gerências e chefias locais das duas transnacionais, entre elas a que estava acima de mim, a gerência regional de mineração, encabeçada pela múmia paralítica em pessoa.

O doce capataz, ou melhor, gerente, se enfurnava na sala com ar condicionado, cercado de funcionários da área administrativa, sem jamais visitar as frentes de pesquisa mineral. Vez ou outra se divertia no rádio comunicador, vomitando ordens descabidas aos profissionais que sofriam no meio da floresta. Ninguém o suportava, do peão ao geólogo líder do projeto. Era muita incompetência e arbitrariedade numa só pessoa. Nada entendia de geologia, mineração ou relacionamento interpessoal. Foi enfiado no cargo provavelmente por ligações escusas com a alta direção da empresa. E o energúmeno se transformava no tema predileto de piadas e xingamentos, vindos de todos. O sujeito era a encarnação do modelo de eficiência importado pelas empresas transnacionais. 



OS ACAMPAMENTOS

De posse de mapas de localização, partíamos da vila rumo ao ponto de referência, de caminhonete, de barco, a pé, ou geralmente numa combinação dos anteriores, em operação que poderia demorar dias. Estabelecido o local exato a partir do qual o projeto de pesquisa se basearia, iniciávamos a montagem do acampamento.

No espaço desmatado armávamos barracas, utilizando estruturas de pedaços de pau cortados na mata, cobrindo-as em seguida de palha ou lona. Dentro delas estendíamos nossas redes devidamente protegidas pelos mosquiteiros que as envolviam completamente e nos isolavam das picadas de insetos em geral. A engenhoca do mosquiteiro encantava pela funcionalidade, uma vez que vedava toda a rede sem tocá-la, mal que permitiria o contato da pele com os ferrões externos.

A barraca da cozinha era armada em local mais próximo do igarapé, de onde pegávamos a água para beber e cozinhar, e também onde nos banhávamos, evitando contaminações de uma coisa pela outra. Nada de banheiros para os líquidos ou sólidos. No máximo se cavava um buraco a mais de cinquenta metros do acampamento e se fincavam dois paus de apoio na beira da cova a fim de evitar que um desavisado despencasse nos excrementos.

Conforme o número de funcionários do projeto, o cozinheiro e o eventual ajudante permaneciam no acampamento base preparando a refeição para a tropa toda, certamente faminta quando retornasse das atividades de campo. O cardápio raramente variava de arroz, feijão, farinha, carne salgada trazida da cantina da vila da empresa, alguma pesca ou caça obtida nos arredores. Eu destacava um ou outro peão, devidamente munido de cartucheiras, para caçar cotia ou paca, invariavelmente saborosas. Ocorria de não acharem nada ou trazerem aves do tipo jacu ou jacumim, de carnes duras e insípidas. A fome, porém, nos ajudava devorar tudo o que estivesse pela frente.

O que não dava para tolerar era o cozinheiro que se animava a cantar canções evangélicas em alto volume. Eu o repreendia. O pior acontecia no início da noite, com todos nas redes e prontos para dormir. A ovelhinha do rebanho disparava a vomitar mais salmos. Eu tinha que sair da rede e, sem mais paciência de argumentar, mandá-lo calar a boca. Os outros peões apenas riam.

Todos se recolhiam bem cedo. O acampamento escurecia antes do pôr-do-sol em virtude dos raios inclinados não penetrarem pelas árvores de grande porte que nos rodeavam. Assim que a maioria entrava nas redes, dissecava assuntos que raramente diferiam de putas, brigas, garimpos, atritos com a empresa. Ouvia-os atentamente, me divertia ou me enfadava, me sentindo incapaz de participar. As vozes não duravam muito. O sono logo os pegava, os lançando em sono profundo, com ou sem roncos, altos ou não. Eu folheava o livro da vez com a luz da lanterna antes de também adormecer rapidamente.

As temperaturas amenizavam durante a madrugada. Jamais transpirei na rede. Nos meses do meio do ano, precisava me cobrir para me proteger do frio noturno amazônico, ainda que suave.

Depois de pastar nas primeiras noites, me acostumei com a rede. Passei a adormecer com facilidade, em poucos minutos depois de me aconchegar. Quanto à posição, aos possíveis roncos devido à barriga para cima, à tendência natural de a boca abrir e de o queixo cair, nada posso garantir. Um peão insinuou que o ronco funcionava como chamariz para as onças. Mas nada podia fazer. Mesmo usando rede de casal, as opções de posição eram mínimas.

As semanas que antecediam o início das primeiras tempestades apavoravam pelas ventanias violentas, provocando fortes oscilações nas árvores ao redor do acampamento. Eram galhos e folhas para todo lado. Os troncos mais finos, e nas rajadas mais ferozes até os mais grossos e altos, vergavam ameaçadoramente, rangendo e estalando, nos assustando diante da possibilidade de despencarem sobre as redes ou nossas cabeças. Quando essas situações ocorriam à noite, levantávamos e, com as lanternas apontadas para as alturas, avaliávamos, em caso de queda de árvores, para onde deveríamos correr. Impossível relaxar e adormecer antes de a natureza se acalmar.
continua...

4 comentários:

  1. Obrigado pelo comentário, Erotildes.
    Emocionante sim, no bom e no mau sentido.
    Afinal, eu não estava a passeio. Fui para morar e trabalhar sem prazo de volta.
    Visitei a região a passeio em várias outras oportunidades, cruzando os rios da Amazônia, fatos que relatei aqui mesmo no blog. Confira.
    Cresci e amadureci demais com essas experiências.
    Aguarde as partes seguintes dessas memórias.
    Abraços!

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  2. Olá, Também cheguei em Rondônia 1982, mas meus irmãos chegaram 1977 em Vilhena receberam terra do INCRA, também penaram muito mas acredito que não foi tão complicado como foi sua estadia, foi diferente, mas interessante e ao mesmo tempo cruel relato, ainda temos por aí situações parecidas com a que você expoe aqui. Não só a amazonia mas em muitos lugares do Brasil acontece coisas ruins e injustas infelizmente.
    Ama minha Rondônia, nossa familía não tinha nada em São Paulo, passamos por Mato Grasso e chegamos em Rondônia, tudo o que temos agradecemos ao solo rondoniense.
    Obrigada pelo texto muito bom.

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  3. Oi Olga, obrigado pela visita e pelos comentários.
    Eram anos de desbravamento das fronteiras agrícolas e minerais. A BR-364 ainda nem tinha asfalto. E leis, nenhuma por ali. Tempos duros.
    Mas, como enfatizou, muita coisa, lá e aqui, pouco ou nada mudaram.
    Abraços. Comente sempre!

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