sábado, 31 de março de 2012

Paraíba e Pernambuco (parte 5/5)

                                
..continuação
Pulamos da cama para nosso último café da manhã na Baía da Traição, guardar tudo, fechar a conta e botar novamente o pé na estrada.
Quem calculou, emitiu a nota com as despesas e providenciou a cobrança via cartão de crédito foi o próprio estadunidense. Só que a máquina não funcionava, o rolo de papel se prendia, não liberava as vias, bloqueando o encerramento da operação. O estadunidense tentou assim, tentou assado, puxou daqui, empurrou dali. Nada. A transpiração crônica que já lhe era costumeira, se multiplicou, empapando de suor o rosto, braços, costas, mãos. Entrou em pânico e chamou aos berros o marido brasileiro. Este, sempre mais calado e contido, surgiu impaciente, irritado pela interrupção. E se enervou ainda mais ao descobrir o motivo. Arrancou a máquina de cartões das mãos do estadunidense, reposicionou o papel na impressora, reativou a operação. Pronto, estava tudo resolvido. Em menos de um minuto. Se voltou para o marido gringo, bravo, em voz alta, o acusando de incapaz e gritando: “Eu consigo mexer nessa máquina. Fulana também consegue. Até sicrano consegue. Só TU é que não consegue! Tinha que ser gringo mesmo!”. O gringo, humilhado em público pelo marido, tentava disfarçar, entre sorrisos amarelos, trejeitos com os braços, mãos e, claro, mais suor pelo corpo.
Depois de quase quatro dias sem por a mão no carro alugado, pegamos a estrada novamente, desta vez rumo ao interior da Paraíba.
Em rodovias estreitas, mas razoavelmente conservadas, passamos pelas cidades de Mamanguape, Itapororoca, Araçagi, Guarabira, Cuitegi. Serrotes, morros e colinas se erguiam de todos os lados. O traçado sinuoso e acidentado das rodovias exigia atenção redobrada, principalmente diante de carroças, ciclistas, animais, crianças, circulando pelo asfalto.
Baixamos em Areia no final da manhã e nos hospedamos em pousada nova, confortável, caríssima, fornecendo vista privilegiada dos vales e montanhas.
Matamos a sede e tomei cachaça artesanal no famoso bar do Chifre, um tanto desfigurado em comparação às outras visitas que eu fizera a Areia. Retiraram vários chifres das paredes e teto, assim como pinturas coloridas e humorísticas referentes ao tema. As paredes da frente e dos interiores do bar, outrora bizarras e interessantes, se tornaram mais palatáveis a quem prefere a pasteurização e padronização de ambientes. Talvez por interferência de setores conservadores e fundamentalistas de todos os matizes, escandalizados com as manifestações culturais espontâneas da população. Mas as cachaças permaneciam saborosas e caíam como luva para abrir o apetite e elevar os espíritos.
A alta cidade de Areia continuava bonita e atraente, exibindo casario da virada do século XIX para o XX, bem conservado e pintado com cores vivas, disposto em ruazinhas e ladeiras que permitiam entrever as montanhas ao redor. Construções históricas abrigavam museus e centros de cultura. Visitamos a casa do pintor Pedro Américo, natural de Areia e autor, entre tantos desenhos e pinturas, do quadro do Grito do Ipiranga. Em espaço pequeno e modesto, pouco ou nada havia do artista em exibição. A maioria das obras, cópia ou original, vista nas vezes anteriores, foi retirada não sei para onde, deixando a casa desolada e desprovida de interesse.
Após tarde na preguiça, com direito a completo arco-íris surgido depois de chuviscos e garoas vespertinas, jantamos bem no restaurante da pousada. Doses generosas das cachaças artesanais, branquinhas, purinhas, não contaminadas pelo modismo do envelhecimento, abriram o apetite e ajudaram a espantar a sensação de frio trazida pelos ventos que entravam pelos janelões. E um suculento doce de jaca em calda coroou a refeição.
Fechamos a conta dolorosa da pousada depois do café da manhã. Descemos a serra de Areia, reencontrando o calor abafado das planícies cobertas por vegetação agreste e seca. Cruzamos a cidade de Alagoa Grande, terra de Jackson do Pandeiro e da líder camponesa Margarida Maria Alves, assassinada em 1983 pelos latifundiários invasores de terra. Ninguém tinha sido preso pelo crime. Pobre e discreta, Alagoa Grande se acidentava em ladeiras abrigando casario e comércio precários. Escadarias nos morros levavam aos cruzeiros no topo das alturas.
Entramos em João Pessoa pelas praias ao norte da capital, como Bessa e Intermares, mais badaladas e frequentadas pela galera da moda. Deixamos a bagagem no hotel reservado, na praia de Tambaú, novíssimo e caro. Devolvemos o carro na locadora, satisfeitos pelo bom aproveitamento nos onze dias de explorações.
E de volta ao deliciosíssimo, ventilado e aconchegante calçadão das praias de Tambaú e Cabo Branco.
Apesar de variado e saboroso, o café da manhã do hotel novo era servido em salão claustrofóbico no andar térreo do prédio, com o desagradável ar condicionado e a insuportável televisão ligada na rede monopolista de sempre. A decoração de refeitório, a disposição alinhada das mesas, as copeiras circulando de uniforme terrível e botas de borracha branca, conduzindo o carrinho largo e alto para recolher pratos e talheres sujos, forneciam ao local clima de penitenciária ou, no mínimo, salão de fábrica. E para piorar teve um energúmeno que exigiu que aumentasse o volume da televisão a fim de ele ouvir sei lá qual baboseira que a tal rede vomitava pela manhã. O indivíduo despejou o olhar bovino na direção do televisor a fim de ganhar a dose diária de embrutecimento.
Subimos em ônibus urbano. Aproveitamos o dia com pouco sol para circular pelo distante centro histórico de João Pessoa, com casario esparso e construções antigas dignas de nota como igrejas seculares e o mosteiro de São Francisco. No coração administrativo da capital paraibana, entre prédios do executivo, legislativo, judiciário, autarquias, reinava absoluta a estátua de João Pessoa, figura emblemática na história da Paraíba e do Brasil, dando o nome à capital do estado após ter sido assassinado durante as conspirações do que se convencionou chamar de revolução de 1930.
Após nos entregarmos à preguiça merecida da tarde, jantamos espetinhos e carnes em quiosque arrumadinho no calçadão de Tambaú. Precedi o banquete com uma dose de cachaça artesanal branquinha e o acompanhei com caipirinhas bem temperadas. E entre mordidas e goles, contemplávamos o sempre delicioso burburinho e vaivém no calçadão, entre famílias inteiras, casais, grupo de amigos, pessoas sozinhas, de todos os tipos, idades, aparências, comportamentos. Movimento vivo em espaço público e democrático.
Após a tortura no refeitório do café da manhã, nos deparamos com o único dia cinzento e chuvoso daquela viagem. Nada para fazer. Quando o tempo abria, nem que por pouco tempo, andávamos na orla da praia, desenferrujávamos as articulações, respirávamos o ar marinho, observávamos o minúsculo movimento de banhistas nas imediações. Ainda assim, a beira do mar de João Pessoa nos envolvia e nos encantava. E a ligeira queda na temperatura, aliada ao vento onipresente, aumentou nosso apetite, nos levando a refeições mais fartas e substanciosas.
Muita praia, muito sol, muita água do mar, no nosso último dia na Paraíba. Caminhamos bastante pelas areias e pelo calçadão. Mergulhamos no mar, nos espreguiçamos na areia apreciando o movimento dos frequentadores, matamos a sede, nos aquecemos, nos refrescamos.
Fizemos nosso intervalo em quiosque bem simples da praia de Tambaú, entre caldos, espetinhos, cachaças artesanais branquinhas e caipirinhas bem preparadas. Vendedores de chapéus, de óculos, de roupas de praia, de músicas, de artesanatos, duplas de violeiros, circulavam por entre as mesas dos clientes. Ao menor sinal de calor, o chuveiro de água doce, improvisado na areia, logo ao lado de cada quiosque, era acionado para deleite dos calorentos, especialmente das crianças.
Mais preguiça à tarde, aguardando o sol baixar um pouco, antes de mais areia e mergulhos no mar de Tambaú, ao entardecer, como despedida daquela praia aconchegante, bem em frente ao hotel.
No dia seguinte, fugimos da facada dos taxistas e pegamos os mesmo dois ônibus da ida até o aeroporto de João Pessoa. Nada de lotações ou tumultos. Sentamos tranquilamente nos dois veículos em meio a muito espaço para as bagagens.
Encaramos voo direto de quase quatro horas de duração. Contornei a monotonia do percurso com muitas leituras de Oswald de Andrade.
Aterrissamos em São Paulo à noite, sob uma chuva intensa, naquele final de janeiro.

6 comentários:

  1. "O indivíduo despejou o olhar bovino na direção do televisor a fim de ganhar a dose diária de embrutecimento". Chorei de rir! Mas de acordo, sem tirar nem por. Marcela.

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  2. Oi Marcela, obrigado pelo comentário.
    Ainda bem que, com opiniões como a sua, percebo que nem tudo está perdido rssss.
    Leia e comente sempre.
    Abraços!

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  3. Olá!
    Achei seu blog no busca do google e comecei a ler sua viagem pelo norte de Minas. Fascinante descrição. Li até Diamantina e vou voltar para ler o restante com mais tempo. Concordo com o exagero dos preços praticados naquela cidade, sobretudo o preço dos alimentos.

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  4. Oi Anabela, obrigado pelo comentário.
    Adoro o norte de Minas e já fui seis vezes para lá. A sexta viagem está no forno e publicarei aqui neste blog em breve.
    É um pena Diamantina estar na mão desses comerciantes gananciosos, porque a cidade e o entorno são belíssimos.
    Comente sempre...
    Abraços...Augusto.

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  5. Olá Augusto, ainda tenho que conhecer o centro administrativo de João Pessoa. Estivemos em Cabo Branco, no SESC, na altura, eu ainda não escrevia o "Reverso do Mundo" (novembro de 2014) e a unidade estava com problemas de fornecimento de Internet e Tv a cabo tb (se bem que essa última não me interessa muito). Fomos até o Memorial de Augusto dos Anjos e ficamos de voltar, talvez no primeiro sábado de julho agora, pra registrar a praça que ele chamam lá de "dos 3 poderes" e a onipresença de João Pessoa. Não sou muito de praias e acho que seria interessante documentar outras coisas.
    Com relação a Areia, eu adorei aquela cidade, fomos em maio de 2015 e no Ano novo 2015/16. Há uma subida desde a BR 230, passando por Alagoa Grande, que estava em estado pavoroso. Muita gente tem medo de trafegar por ali e não vai até Areia, muito embora não seja essa o único caminho até a cidade. É nessa que perdemos todos... as coisas não são feitas, dá a impressão de que a adm. pública não faz a menor questão que as pessoas cheguem até a cidade, sendo que ela é encantadora (claro, dentro dos padrões da região) e merece muito uma visita.
    Há cenários naturais e arquitetônicos belos e de grande valor cultural e histórico por lá, mas um amadorismo desalentador. Aquilo que poderia formidável não é tratado como tal e aí, como é que vai-se querer que as pessoas valorizem o patrimônio, se nem sequer conseguem chegar aos locais e quando chegam, não há informações, indicações do que é tal coisa, do que se passou ali... etc?

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  6. Oi Leonardo, obrigado pela visita e pelos comentários.
    Em outra viagem à região, também publicada neste blog, parei em Alagoa Grande e circulei pela terra de Jackson do Pandeiro e Margarida Maria Alves, em cuja casa estão expostas a vida e a luta dessa sindicalista assassinada pelos fazendeiros ricos.
    Sempre que vou a João Pessoa dou um pulo em Areia, perambulo pela cidade e tomo uma no bar do Chifre. Concordo com você, os pontos de visitação com interesse histórico e cultural estavam praticamente abandonados e sem apoio ou orientação aos visitantes. Triste!
    Vamos em frente, sempre divulgando as maravilhas do Brasil e denunciando as mazelas da classe dominante contra o povo brasileiro.
    Abraços e comente sempre!

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