terça-feira, 27 de março de 2012

Paraíba e Pernambuco (parte 1/5)

  
Saltamos da cama às 5h, ainda completamente escuro do lado de fora. Pegamos as bagagens e logo partimos para a carona ao aeroporto. O aeroporto de Cumbica já lotava naquele início da manhã. Mas sem tumultos ou maiores obstáculos.
O avião decolou cedo de São Paulo nos primeiros dias de janeiro.
Matamos nossa fome matinal durante a conexão no aeroporto do Rio de Janeiro com os itens adquiridos antecipadamente. As migalhas servidas nos aviões não dariam nem para o começo para encher a pança. O segundo trecho aéreo, bem mais longo e cansativo, compensou parcialmente em razão do visual panorâmico do litoral nordestino. O lanchinho frio e minguado servido no voo só fez cócegas.
Encaramos dois ônibus urbanos após o desembarque em João Pessoa no começo da tarde. O segundo nos deixou na avenida da praia do Cabo Branco, a poucos metros do hotel reservado previamente devido à alta temporada.
Bem instalados em quarto arejado, amplo e confortável, antecipamos o jantar pela fome em acelerado crescimento. E mergulhamos de cabeça em porção bem servida de peixada de dourado em quiosque do calçadão da praia. Duas caipirinhas regaram o lauto banquete. Ao perguntarmos sobre as comemorações da virada do ano, o garçom respondeu “assisti um pouco da festa perto do bústchu”, referindo-se ao local tradicional de eventos da cidade, fim da avenida Epitácio Pessoa, divisa entre as praias de Tambaú e Cabo Branco, e onde se ergue o busto do almirante Tamandaré.
Acordamos cedo para nos deliciarmos no farto, variado e saboroso café da manhã do hotel. Servido na cobertura do prédio de três andares, em local naturalmente ventilado, sem o desnecessário e incômodo ar condicionado, e sem o televisor para idiotizar hóspedes e funcionários. Além da deliciosa brisa constante soprada do mar, tínhamos a vista estupenda da praia do Cabo Branco e Tambaú.
Forramos bem o bucho antes de botarmos os pés no calçadão e caminharmos até o farol do Cabo Branco, debaixo de sol nordestino. Passeio longo, mas sempre prazeroso, com direito a águas de coco pelo caminho, a brisa, o visual das praias. Apenas margeamos a Estação Ciência instalada em obra recente do incansável Oscar Niemeyer. Nas imediações do farol, detonamos um litro e meio de água observados pelos macaquinhos saltitando sobre os galhos das árvores e as cadeiras plásticas desocupadas.
Retornamos pela areia da praia, bem próximos à linha das águas do mar, parando para mergulhos refrescantes. Relaxamos na areia antes de arriscarmos quiosque barato ao lado do calçadão, com vista permanente do mar, entre caipirinhas, caldos de camarão e caranguejo, espetinhos de carne. Vendedores ambulantes, sem serem insistentes, perambulando por entre as mesas, vendiam de tudo um pouco.
Partimos para a procura de aluguel de carro pelas dezenas de locadoras da cidade. As maiores e mais tradicionais, além do atendimento robotizado, ofereciam preços exorbitantes, mesmo para os veículos básicos. Fechamos negócio em locadora local, pequena, sem badalação, mas com preços e condições honestas.
No começo da noite, experimentamos o para lá de famoso restaurante especializado em bufê de comidas regionais sertanejas, no bairro da Manaíra. E, em minha terceira tentativa, em anos de visita a João Pessoa, o local novamente não me agradou. As dezenas de opções oferecidas variavam em torno de um mesmo tema, passando má impressão da saborosa culinária do sertão nordestino.
Após mais um delicioso café da manhã na cobertura, naturalmente ventilada e sem a embrutecedora televisão, relaxamos nas areias da praia do Cabo Branco, sem ambições de andanças para cá ou para lá. A praia não lotava. Não faltou o sol paraibano para nos aquecer e nem os mergulhos no mar para nos refrescar.
Depois dos comes e bebes em quiosque, complementamos o apetite com estupenda tapioca recheada de queijo, coco e banana no tapiocódromo de Tambaú.
E nos entregamos à merecida preguiça no restante da tarde. Nos sentamos na mureta do calçadão da praia do Cabo Branco, observando o movimento dos caminhantes, sentindo a refrescante e constante brisa do mar. A frequência, diurna e noturna, era bem familiar, entre várias gerações, de idosos a crianças de colo, passando por adolescentes e adultos, de todas as classes sociais, tipos físicos, intenções. Espaço público e democrático muito bem aproveitado pelos pessoenses e visitantes.
Vendedores de CD e DVD circulavam com os impagáveis carrinhos, pesados, verticais, recheados de ofertas, sempre tocando esse ou aquele sucesso do momento. Um senhor idoso, vestido inteiramente de preto, inclusive o chapéu de feltro e de abas largas, desfilava com um carrinho similar, também preto, ao som de textos bíblicos narrados por um pastor qualquer dessas empresas chamadas de igrejas que comercializam a fé dos outros.
Na tarde seguinte, depois de horas na areia da praia pela manhã, fechamos a conta no hotel, aguardamos a liberação do carro na locadora, enchemos o tanque e pegamos a estrada. Percorremos parcialmente a BR-230 que se dirigia às principais cidades do sertão paraibano.
Pegamos o ramal para a cidadezinha de Ingá. Após perguntarmos sobre hospedagem, encontramos a única opção em atividade. Básica, simples e mal cuidada, a pousada oferecia quarto apertado, com janelões de madeira e sem tela contra os mosquitos, cama de casal sobre base de cimento grudada na parede, meia parede separando o banheiro minúsculo, temperatura interna de forno.
A maioria dos moradores de Ingá ainda sentia os reflexos das enchentes de sete meses antes quando o nível das águas do estreito rio que margeia a cidade atingiu até a metade das paredes das casas, arrastando móveis e pessoas. A população sofreu bastante e aparentemente ainda não se recuperara, material e mentalmente, da tragédia. Naquele janeiro, porém, o rio quase seco exibia fio de água fino e sinuoso, permitindo a formação de campos de futebol na zona de várzea.
Precedi o jantar na própria pousada com duas doses generosas de cachaça alambicada em Areia, entre conversas despretensiosas com o cozinheiro que assou pizza deliciosa. De barriga cheia, averiguamos o movimento da rua, das calçadas. Praticamente nenhum àquela hora da noite.
O café da manhã no dia seguinte veio meio sertanejo meio urbano. Cuscuz, ovos fritos, queijo de coalho frito, fatias de pão já quentes com delgada camada de manteiga ou margarina, café fraco e leite.
Circulamos pela feira semanal nos altos de Ingá, ao redor do mercado municipal, onde se vendia de tudo. As zonas rurais das redondezas baixavam na cidade, ofereciam mil coisas, arrecadavam algum que seria gasto, na maioria das vezes, na própria cidade, no mesmo dia. Produtos agrícolas, carnes expostas para os fregueses e para as moscas, roupas e acessórios, artigos para o lar, redes, CD e DVD carregados pelos infalíveis carrinhos verticais, entre outras centenas de itens.
Em seguida nos dirigimos às itaquatiaras nas cercanias da cidade, onde se localizava a famosa pedra do Ingá. O ingresso nos dava direito a dois guias que nos acompanhavam e descreviam as características das inscrições na pedra, ao ar livre e, depois, no singelo museu exibindo algumas amostras. Inúmeras teorias tentavam decifrar as inscrições cavadas na pedra, em vários formatos e tipos, descritivos, abstratos, geométricos.
Matamos a sede entre conversas sobre a política e os estragos das enchentes aos moradores com os guias, vendedores e visitantes na porta da lojinha logo na entrada. Desceram a lenha nos políticos locais que volta e meia se elegiam para isso ou para aquilo, raramente largando as tetas do poder.
Depois saímos pelas estradinhas locais de terra que cortam o município, nos aproximando da Serra Velha, após inúmeras porteiras entre propriedades particulares, e do povoado de Chã dos Pereiras, ponto de artesanato em tecidos.
Retornamos a Ingá, compramos lanchinhos e improvisamos um almoço tardio sentados no coreto da praça em frente à igreja matriz, enquanto observávamos o fraco movimento da tarde de sábado do interior paraibano. O discreto vaivém pela porta da igreja indicava cerimônia de casamento para mais tarde. Os moradores continuavam a nos olhar como se fôssemos extraterrestres. Mesmo os que passavam de carro viravam exageradamente os pescoços para analisar aqueles dois tipos estranhos perambulando pela cidade.
No dia seguinte, tomamos café da manhã, pagamos a conta em dinheiro vivo e botamos o pé na estrada.
continua...

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