sexta-feira, 15 de julho de 2011

do Pará a Alagoas (parte 2/6)

...continuação
Pessoas de pele escura predominavam entre os maranhenses da região de Santa Inês. Cafuzos e cafuzas exibiam corpos esguios. Recebi desde olhares espantados e temerosos a curiosos e receptivos, entre sorrisos e intenções de trocar palavras. A retração e a cara fechada dos maranhenses logo se desfaziam quando eu tomava a iniciativa de puxar assunto, pedir informações ou simplesmente cumprimentá-los sorrindo. A cidade praticava o salutar costume de colocar as cadeiras na calçada, durante as noites, e conversar com a família e vizinhos, observar o movimento, passar agradavelmente o tempo, sem pressa ou ansiedade. Em bares, restaurantes, até em ambulantes que preparavam sanduíches e salgados nas calçadas, a onipresente televisão lá estava para atrair como imã os olhares bovinos dos frequentadores. Em vez de conversar entre si, observar o movimento, trocar olhares, a maioria se embrutecia diante de tamanho lixo audiovisual.
O percurso de ônibus até Peritoró revelou paisagem aplainada com extensos campos de babaçus, algumas fazendas de gado, baixios alagados, rios e riachos caudalosos. As sedes das fazendas ostentavam mansões enormes em estilo moderno, currais bem construídos e bem conservados. O gado recebia do bom e do melhor. A população que servia como subempregada ou escrava nas mesmas fazendas, por outro lado, vegetava na mais absoluta miséria. O mesmo ocorria para a maioria que se amontoava nos vilarejos e cidadezinhas. Predominavam barracos de pau-a-pique ou taipa, cujos interiores se apresentavam ainda em piores condições. Os animais dos fazendeiros viviam melhor que aqueles seres humanos.
Me refugiei na lanchonete atrás da rodoviária de Peritoró para passar as mais de cinco horas até a saída do segundo ônibus. Mas a lanchonete fechou e me restaram as sujas dependências da rodoviária. O ônibus chegou quase à meia noite. Faltou pouco para o supérfluo ar condicionado congelar os passageiros, a maioria escondida debaixo de cobertores e mantas. Contrastes estapafúrdios do miserável Maranhão. E a empresa Transbrasiliana transportou passageiros em pé em plena madrugada, pratica ilegal e desumana.

Amanheceu na BR-230 sob um céu azul e sem nuvens, em meio ao cerrado do sul do Maranhão, a campos de babaçus e outras oleaginosas. Serrotes e o relevo levemente acidentado empolgaram nas imediações de Buritirama. À medida que se aproximava de Balsas, a devastação do cerrado se acentuava com presença das monoculturas envenenadas de agrotóxicos. Voltadas unicamente para exportação, as monoculturas de soja, além de arrasarem a natureza, envenenavam o solo, empregavam pouco e não investiam socialmente na região. Sotaques e rostos sulinos dos senhores da terra despontavam na paisagem humana.
Desembarquei na podre rodoviária de Balsas.  A minoria milionária que mandava e desmandava por ali só andava em caminhonetes cabines duplas. Os pobres e miseráveis que se esmagassem nas rodoviárias e ônibus lotados. Só o banheiro feminino funcionava para homens e mulheres na rodoviária, imundo e sem papel. Eu teria que aguardar horas o terceiro transporte. Qualquer coisa seria melhor que me hospedar em Balsas, o centro do agronegócio exportador e encravado na miséria do sul do Maranhão. Empurrei sanduíche com ovo e vitamina de goiaba na padaria do outro lado da rodovia que cortava a cidade. Pelas ruas da cidade, publicidade das transnacionais de sementes, agrotóxicos, equipamentos agrícolas, alimentos impostos pelos oligopólios.
As quase quatro horas de percurso da lotação ilustraram sobre o que tem se tornado o sul do Maranhão. Pela rodovia estadual asfaltada, o belíssimo cerrado natural era devastado por fazendas de gado e, sobretudo, pela monocultura extensiva de soja para exportação, geralmente tendo à frente latifundiários e capitalistas do sul do Brasil, os “laranjas” das grandes transnacionais de alimentos. Em mais de um ponto avistei a marca Bunge Alimentos. Em propriedades a se perderem de vista no horizonte, peões borrifavam agrotóxicos sem as mínimas condições de segurança para eles e pessoas próximas. Minúsculos e paupérrimos vilarejos situados ao lado de enormes silos e armazéns forneciam a mão de obra barata ou escrava ao grande capital.
Ao norte de Tasso Fragoso, pequena, simpática, com o rio Parnaíba ao lado, o relevo passou a se acidentar repentinamente. Serrotes, morros, elevações chapadas, alongadas ou não, de inúmeros formatos e tamanhos, surgiram em áreas preservadas do cerrado, em cujos vales estupendos buritizais se impunham na paisagem. Ao sul da cidadezinha o relevo ameaçou se suavizar, mas as chapadas reapareceram pouco antes de Alto Parnaíba, com a maioria das ruas não pavimentadas, a nada menos que 1.250 quilômetros da capital São Luís.

Jantei peixe frito com farofa e salada, acrescido de arroz e ovo frito. Agora sim eu me sentia em Alto Parnaíba, extremo sudeste do Maranhão.
Formigas grandes e assanhadas perambulavam pelo quarto do hotel básico. Matei várias até me cansar e desabar de sono na cama de colchão macio disposto sobre o concreto.
Sendo o único hospede do hotel, a funcionária vinha de casa apenas para me presentear com farto e delicioso café da manhã. Destaque para a jarra de suco de goiaba e a jarra de suco de manga. Devorei gota por gota de cada uma delas.
Depois da praça principal de Alto Parnaíba, a cidade descia suavemente em direção ao rio Parnaíba. Nas imediações da margem do rio erguiam-se construções antigas do núcleo original da fundação da cidade. Cheias ou ameaças de cheias do rio deslocaram o centro e os novos bairros para longe dali. Atravessei as águas barrentas das últimas chuvas no Parnaíba, até o outro lado, Santa Filomena, já no estado do Piauí. A travessia era realizada por pequenas balsas manuais. Apenas um sistema de cabos de aço e polias guiava a embarcação frente à correnteza das águas.
Santa Filomena era menor que Alto Parnaíba. Sob o sol de rachar mamona circulei pelas ruas da cidade, quase todas não pavimentadas. Assisti parte da sessão extraordinária da câmara de vereadores, com a presença do prefeito, transmitida por alto-falantes para toda a cidade e pela emissora de rádio municipal. A pauta seria as constantes faltas de água e energia elétrica em Santa Filomena e o não repasse à prefeitura do valor recolhido das tarifas pela companhia estadual de energia.
Dos altos de Santa Filomena avistei as serras e morros chapados além de Alto Parnaíba. Mais distantes ainda, as chapadas concentradas na direção de Tasso Fragoso.
Para meu alívio, a despeito da presença de sujeitos do sul do país em monstruosas caminhonetes, dos armazéns e silos na entrada de Alto Parnaíba, da região cada vez mais devastada social e ambientalmente pelas monoculturas para exportação, não notei sinais em ambas as cidades de plantações daquilo. Que assim continuasse. As populações necessitavam de investimentos sociais e não de destruição, envenenamento do ar, águas e solos, subempregos, trabalho escravo. Os moradores nas cercanias dessas ações criminosas sentiam os efeitos do uso intensivo de agrotóxicos junto à derrubada do cerrado original. Eram riachos ressecados, poluídos, aumento das temperaturas.
Caminhei pela a estrada de chão para Lizarda, estado do Tocantins, com a intenção de me aproximar dos morros e serras chapadas de Alto Parnaíba. A estrada revelava movimento esparso de motos, veículos pequenos e, mais raramente, carretas imensas transportando os produtos de exportação das monoculturas quilômetros adiante. Acessei estradinha vicinal, estreita, pouco ou nunca usada, me levando exatamente ao pé de um conjunto de morros. Em meio ao cerrado maranhense, me embrenhei para apreciar os paredões irregulares, erguidos em diferentes formatos e tamanhos. De tonalidade ocre, aquelas formações impressionavam pelas escarpas, escavadas em grutas incertas, ou maciças e uniformes. Cerrado mais ralo e menos desenvolvido aparecia nas encostas graduais e na plataforma dos topos. Mutucas não davam sossego um segundo sequer. Surgiam do nada e atacavam às dezenas, centenas, milhares, com picadas para lá de ardidas, das quais brotava sangue na certa. Avancei mais pela estrada de chão e tomei o ramal sem movimentação alguma de veículos. Os morros, de outros formatos, desenhavam mais cenários interessantes.

Retornei horas depois a Alto Parnaíba por outro acesso, passando por bairros miseráveis, cheios de barracos e casas em condições desumanas. Parei na praça principal e matei minha sede com litros de água.
E à noite a cidade se agitava, sobretudo ao redor da praça principal. Futebol de salão na quadra, turminhas circulando, bares e lanchonetes com bom movimento. Motos passando a toda velocidade, sem falar naqueles monstrengos das caminhonetes cabines duplas, todas muito parecidas, funcionando como uniformes de ostentação do agronegócio. 
Explorei o sentido sul da cidade, via a estrada de chão que iria até o distrito de Curupá, com relevo ondulado cortado por pequenos vales de córregos que desembocavam no Parnaíba. Peguei trilha estreita sobre o solo empedrado e ferruginoso. Bem depois dei de frente com o vale alargado e, mais adiante, o imponente serrote chapado, com a escarpa rochosa exposta de coloração ocre. No fundo do vale, mais lajedos e pequenas paredes avermelhadas. A trilha prosseguia em direção à base do serrote. O sol parecia explodir a cabeça que, mesmo com o chapéu, pedia trégua.
Retornei à praça principal da cidade após muitas horas, cansado, com o corpo pegando fogo e ensopado de suor, morto de sede, porém realizado por mais uma exploração pelas quebradas locais.
Placas de veículos do Paraná, Rio Grande do Sul, Tocantins, Goiás, prevaleciam sobre as de Alto Parnaíba, evidenciando polo de turbulências e incertezas no curto prazo. Os integrantes desses veículos se comportavam de maneira selvagem, caindo em cima das meninas locais, quase sempre menores de idade, como predadores das cavernas. Certamente praticavam a pedofilia impunemente e incentivavam a prostituição infantil. Porém, tudo por uma nobre causa, a devastação do bioma cerrado, o aprofundamento da miséria e, claro, o crescimento do agronegócio no sul do Maranhão.
Atravessei o rio Parnaíba e permaneci em Santa Filomena à espera do ônibus na pracinha da beira do rio. A lata velha, sem os para-choques, apareceu e, assim que estacionou, foi um tumulto para entrar e sentar em meio a empurrões. Depois de colocar minha mochila no bagageiro inferior, não havia mais nenhum assento livre. Ou tinha gente sentada neles, ou havia sacolas ou crianças guardando lugares para passageiros que embarcariam na saída de Santa Filomena. Me sentei em banco do corredor após afastar a sacola de alguém. Funcionou. Havia reserva para apenas um senhor que embarcou mais adiante. Exceto dois rapazes que se sentaram sobre bagagens no fundo do ônibus, todos acabaram por conseguir a vaga tão desejada.

Foram cinco horas para percorrer os cerca de 130 quilômetros de estrada de chão, bastante danificada, sobretudo na segunda metade. A paisagem encantou pela beleza, tanto pelo cerrado, como por mais e mais morros chapados. A estrada cruzou transversalmente a serra, sendo a maior parte do percurso em relevo acidentado, entre moderados sobes e desces. O deprimente ficou por conta dos trechos do planalto ocupados pelas monoculturas de arroz e soja, em imensas propriedades griladas, a perder de vista no horizonte, devastando o cerrado original, atacando o solo com quantidades absurdas de agrotóxicos borrifados de avião. Daí os riachos condenados ou secos definitivamente, a expulsão da flora e fauna nativas.
Depois de passar por Monte Alegre, desembarquei em Gilbués no começo da noite. O segundo ônibus passaria depois da meia-noite, sem saber se haveria ou não lugares disponíveis, não parando na rodoviária e sim na praça de frente para a BR-135 que cortava a cidade. O vendedor da empresa que operava a linha sugeriu que eu pegasse ônibus na manhã seguinte. Acabei por aceitar a indicação de hotel, caríssimo para um quarto minúsculo e sem banheiro privativo.
Após o café da manhã, o rapaz da pousada me levou de moto, sem capacete, até a rodoviária. E me cobrou, é claro. Na rodoviária encontrei muitos dos que viajaram comigo no ônibus desde Santa Filomena no dia anterior, aguardando para seguir a Brasília. Não encontraram vagas em nenhum dos ônibus que passaram durante a noite e madrugada. Uns ainda conseguiram dormir num hotel qualquer, mas a maioria passou todo o tempo ali mesmo nas dependências espartanas da rodoviária.
continua...

2 comentários:

  1. Rapaz..tremi na parte das mutucas. Sei o que é isso. Agora, você deve ter exercitado muito o teu lado zen...a espera por transporte e o tempo de trajeto entre um lugar e outro é surreal... Sobre a pedofilia, anos atrás tive oportunidade de ler parte de um relatório encomendado pela OIT. Nele esse cenário q vc descreveu é comum (norte e nordeste), principalmente com os caminhoneiros, e muitas vezes com o aval da família - geralmente miserável. Isso é totalmente revoltante. PS: Você escreve muito bem.

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  2. Oi, obrigado pelos comentários.
    Se tiver paciência e interesse, dê uma olhada nas publicações anteriores, com mais e mais relatos de minhas viagens pelo Brasil e outros países.
    Talvez essas nossas observações se refiram às diferenças entre viajante e turista. Nós, os viajantes, mesmo em viagem de lazer, não tapamos os olhos às mazelas sociais, procurando, dentro do possível, compreendê-las, denunciá-las, sempre na esperança de mais cedo ou mais tarde superá-las.
    Valeu!

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