quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Mato Grosso do Sul (parte 2/2)

...continuação
Sentei na frente do hotel e papeei com o casal de proprietários catarinenses. Os temas alternavam entre as rebeliões de presos em São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, acompanhadas das costumeiras opiniões fascistas divulgadas pelos meios de comunicação, do tipo “bandido tem que morrer”, ou os tais protestos dos grandes do agronegócio, previstos para atingir o auge no dia seguinte, agora com a adesão compulsória de parte dos pequenos agricultores. Os argumentos gastos e duvidosos utilizados pelos latifundiários sensibilizavam o casal, que os lia, um a um, no panfleto recebido. Ela destacava o aumento dos preços dos insumos frente aos preços finais de exportação. E repetia a ladainha que o governo tinha que ajudar os coitadinhos. Mas se esquecia de louvar a tão louvada economia de mercado e a falácia da liberdade dos preços.
Quem sempre produziu alimentos foram os pequenos agricultores e não os latifundiários ou o agronegócio. Mas o maior montante do dinheiro público ia para esses últimos, que o usavam para engordar as próprias fortunas.  E eles exigiam mais dinheiro público. Dinheiro público para a monocultura de exportação e não para a agricultura familiar que alimenta o povo brasileiro.
Deixei o hotel, em jejum, ainda de madrugada. Tomei café puro gentilmente preparado pelo vigia noturno e caminhei até a estação rodoviária, ainda vazia.
O ônibus pequeno partiu com menos da metade da lotação. Passageiros subiam e desciam na beira da estrada. A lua cheia a oeste iluminava a paisagem do cerrado enquanto o clarão de luz começava a aumentar a leste.
E, afinal, não houve bloqueio algum por parte dos soldados do agronegócio. O dia clareava quando atravessamos Bonito, cidade coberta de pousadas, restaurantes, comércio disposto em ruas largas e extensas. Muito diferente de quando visitei a região onze anos antes.
Com palmeiras e matas ciliares, a paisagem dos campos de cerrado evoluía de relevo ondulado a levemente acidentado à medida que se aproximava a serra da Bodoquena. Pequenas elevações alongadas cobriam-se de vegetação de porte médio. Raríssimas plantações nas imensas fazendas. Emas circulavam livremente. A rodovia cruzava o pantanal em meio a campos, buritizais, canais alagados, com aves de diversas espécies e jacarés dormitando ao sol. O ônibus cruzou ponte extensa e elevada sobre o rio Paraguai na rodovia federal que nos levava a Corumbá. A estrada tornou-se sinuosa, o asfalto piorou, as serras erguiam-se em ambos os lados. Uma mineração de ferro instalara-se no meio das colinas.
Desembarquei na estação rodoviária de Corumbá no meio do dia. Coloquei a mochila nas costas e saí na procura de hotéis. Fazia calor, o sol torrava. Nem sinais do frio dos dias anteriores no sul do estado.
A maioria dos hotéis baratos do centro da cidade se instalava em prédios velhos e caindo aos pedaços, com corredores e quartos escuros, ausência de janelas, o mobiliário podre. Optei por um de quarto grande, com cama de casal, janela aceitável, banheiro que se ensopava durante o banho.
Esvaziei a mochila no armário sem prateleiras, gavetas ou divisões.
À noite fui direto me deliciar com pintado ensopado, saboroso demais, ricamente temperado. Para esperar, detonei duas caipirinhas bem preparadas, e para encerrar, me refresquei com refrigerante local, esverdeado, com aroma e sabor intenso de mate. O restaurante ficava instalado em casarão antigo, com pé direito alto e portas altas de madeira, diretamente na calçada. O senão ficou por conta do televisor ligado nas besteiras da rede monopolista. Ainda bem que encontrei mesa atrás de grossa coluna, imune àquele pesadelo.
Caminhei sem rumo pelas ruas do centro antigo de Corumbá, tomado de casarões, escadarias, bares surpreendentemente tranquilos. Lá embaixo, corria o rio Paraguai com dezenas de barcos atracados no cais. A calmaria predominava naquela noite estrelada.
De volta ao clima quente, finalmente. Calor, roupas leves, transpiração, gente nas ruas, alegria. Vida, muita vida!
Pela manhã me dirigi ao centro histórico, com a calma que ele merecia. Circulei pelas partes superior e inferior, interligadas por ladeiras e escadarias. Valia e muito a pena me deixar levar. Construções da virada dos séculos XIX para o XX, a maioria abandonada ou, principalmente, em restauração. A cidade baixa, com certeza, ficaria linda após o término da revitalização. Praças, largos, barracas, sob as sombras atraíam transeuntes, visitantes.
Embarcações atracadas de diversos desenhos e tamanhos, para passeios ou pescarias, esperavam os interessados para percorrer o rio Paraguai. As águas estavam altas e escondiam dezenas de bancos de areia. Na ponta da praça nova e alongada, casarões antigos se alinhavam ao pé do morro, agora ocupados por agências de turismo ou lojas de artigos regionais.
Sentei no banco da praça sob a sombra refrescante. Logo apareceu companhia. O senhor aposentado se instalou ao lado e começou a conversar, sobre tudo e todos, com jeito agradável e estimulante. No meio da conversa animada fui premiado com significativa cagada de pássaro alojado na árvore, me atingindo os cabelos e ombro. Aproveitei a mangueira de irrigar os jardins e me lavei do jeito que deu.
Especulei sobre roteiros de passeio nas redondezas. Os bloqueios nas estradas pelos soldados dos latifundiários esvaziaram Corumbá dos turistas e impediam o número mínimo para as saídas. Mas eu não podia reclamar. Era exatamente como eu queria encontrar a cidade.
Dois bares animavam a noite ao lado do hotel mais caro da cidade. Ao passar por entre as mesas da calçada, mulheres vistosas e em quantidade me lançaram olhares convidativos. Olhares profissionais. Não foi difícil compreender a situação e a intenção de se postarem ao lado de hotel, cujos hóspedes, para elas, eram todos ricos. As mulheres comuns de Corumbá jamais olhariam assim.
No mais, a cidade mergulhava em profundo silêncio.
Corumbá possuía traçado quadricular de ruas, paralelas e transversais ao rio Paraguai, algumas arborizadas, com poucas praças. Raros edifícios altos, casas geralmente no estilo das décadas de 1950 e 1960. Bolivianos e familiares compunham a maioria dos ambulantes da cidade. Ofereciam malhas, couros e bugigangas em geral, sobre as barracas ou em panos estendidos diretamente no chão da calçada. Os seguranças que protegiam as agências bancárias e os prédios públicos do centro portavam armas pesadas e pareciam prestes a atirar.
E seguiam os preparativos para o início do festival da América do Sul, previsto para daí a dias. A programação incluía apresentações musicais, exposições artísticas, ciclo de filmes, longas e curtas metragens, oficinas, cursos de artes e de cultura sul americana. Os organizadores montavam tendas e bancas na parte alta e baixa do centro da cidade. Ao lado do Porto Geral ergueram enorme palco em frente à extensa plateia cercada de tapumes.
Peguei ônibus em cujo ponto final eu atingi a fronteira internacional com a Bolívia.
Segui pé, passando sob o arco da alfândega do lado brasileiro. Cruzei ponte curta sobre córrego imundo. Margeei a alfândega boliviana e, finalmente, estava em solo boliviano. Não foi preciso apresentar passaporte ou qualquer outro documento. Os guardas de ambos os lados mal olhavam quem entrava ou saía. O barulhento trecho de cerca de cinquenta metros entre os dois postos de fronteiras cobria-se de poeira e sujeira. Entupia-se de motos, automóveis, caminhões, carretas pesadas.
Primeira vila boliviana após cruzar a fronteira, zona franca, Puerto Aguirre tornava-se paraíso de compras de brasileiros picados pelo consumismo compulsivo. Os olhos deles brilhavam. Corriam para cá e para lá, em meio às lojas e barracas, a fim de não deixar nada para trás. Entre os itens à venda predominavam roupas, lãs, tênis, calçados, casacos e artigos de couro.
Puerto Aguirre mais parecia periferia miserável de qualquer grande cidade. Pequena, empoeirada, comércio deplorável, suja, largada. Com canteiro central mal cuidado, a rua principal levava até a cidade de Puerto Suarez.
Numa esquina, presenciei choque entre moto com placa do Brasil e caminhonete com placa da Bolívia. O motoqueiro voou, rolou na pista, feriu-se levemente. Logo surgiu o policial boliviano, de óculos escuros. Parecia querer resolver o problema. Não fiquei para assistir o desfecho do impasse. Ao meu lado, durante a discussão do acidente, uma adolescente boliviana observava tudo. Graciosa, vestia saia bem curtinha, me sorrindo maliciosamente. A intuição me avisava que era hora de voltar ao Brasil.
O final de semana se aproximava, o calor aumentava, a noites traziam mais corumbaenses para as ruas, bares, restaurantes, praças. Mas a maior parte da cidade e das casas ainda mergulhava no silêncio.
Invariavelmente, em todas as manhãs, as funcionárias do hotel espremiam laranjas no aparelho elétrico. Imaginei que se tratava de reposição para a mesa do café da manhã daquele mesmo dia. Mas não. Elas guardavam o suco em imensas panelas abertas na geladeira e somente o serviam nos dias seguintes. Daí o gosto de velho e passado. A ordem para tamanha estupidez naquele hotel vinha dos donos catarinenses?
O dia amanheceu nublado, com nuvens escuras, carregadas. A frente fria acompanhada de chuvas atingia Corumbá.
Decidi reservar a última noite no melhor restaurante da cidade, o que servia comida primorosa. Mas os preços, em poucos dias, subiram consideravelmente. O Festival de Cultura iniciava e trazia consigo a sede de lucro fácil. Os fregueses que se danassem. Mas a qualidade da comida mantinha-se impecável. A pimenta no ponto certo realçou o sabor do pintado ensopado sem mascará-lo. Nem o televisor, para o qual os bovinos dirigiam os olhares, ofuscou o prazer de comer e beber bem.
Na mesa ao lado, uma morena estonteante brilhava no ambiente. O proprietário da beldade, sentado ao lado dela, ostentava todo o machismo regional. E ela se submetia calada, de cabeça baixa. O predador comia com a mão direita e enlaçava a presa com a esquerda, bem apertada, a fim de demonstrar a todos que ele era o dono, de papel passado e tudo mais. Talvez até trouxesse a nota fiscal de aquisição no bolso da camisa. Por mais que conhecesse os meandros do machismo brasileiro, não dava para engolir tamanha submissão e humilhação. Mas a história ensinava, no entanto, que eram justamente naqueles casos que mais ocorriam as puladas de cerca. Não faltariam “ricardões”, sempre ternos, carinhosos e compreensivos, para consolar e marcar presença. O corno manso, o grande macho, claro, continuaria a apertá-la durante as refeições e nas aparições públicas do casal. Afinal, a mulher pertencia a ele, somente a ele. Ora, pois!
Na saída, o casal subiu em caminhonete típica dos fazendeiros regionais, tão grande que mais parecia iate. O machão e a mulher submissa. Mas só dele!
Empurrei o último café da manhã, sem ao menos tentar o suco de laranja vencido. Não suportava o barulho sem fim dos espremedores elétricos, nem assistir às cozinheiras guardarem os sucos frescos na geladeira enquanto os hóspedes se sujeitavam a beber aquela droga feita dias antes.
Caminhei até a estação rodoviária. Cheguei cedo demais. Fiquei mais de uma hora encolhido de frio, tentando me proteger do vento cortante que passava por toda a estação.
O ônibus partiu no horário com metade da ocupação. Logo começou a chover.
Como normalmente ocorre nas vias que saem de fronteiras internacionais, a Polícia Federal parou o ônibus para fiscalização logo nos primeiros quilômetros da estrada. O fiscal entrou e analisou os passageiros. Escolheu um boliviano, uma moça carregando o filho pequeno e eu. Tivemos que desembarcar e, enquanto três fiscais vasculhavam as bagagens, o chefe nos despejava várias perguntas para sondar terreno. Lia o nome na carteira de identidade e checava no celular se havia algo contra. Foram até simpáticos, olhando tudo, detalhadamente, com calma. Com a bagunça formada de todas as minhas coisas espalhadas no chão, fui convocado para colocar tudo de volta. Havia espaço interno na mochila e não me preocupei em caprichar no arranjo.
E nem adiantaria.
Uma hora depois, novo bloqueio, nova fiscalização. Desta vez da Polícia Rodoviária Federal. As cenas se repetiram. Além dos três sorteados da primeira fiscalização, também foi escolhido um casal jovem.
Chovia e os policiais me solicitaram para levar a mochila sobre a mesa da sala coberta. Vasculharam mais uma vez os itens da mochila. Verificaram meus documentos e checaram-nos no computador contra o cadastro de pessoas procuradas. Repetiram a operação com o nome da minha mãe.
No banco do outro lado do corredor do ônibus, perto de mim, uma senhora viajava com diversas sacolas e malas sob os pés. Ela nem quisera transportá-las no bagageiro do ônibus. Os fiscais jamais a convocaram para abrir as bagagens ou a responder perguntas.
Amanheceu céu azul e limpo no interior de São Paulo. O nascer do sol, à esquerda, impressionou pelo brilho forte e alaranjado.
Desembarquei pela manhã no terminal rodoviário da Barra Funda, nos finais de maio. As nuvens reapareciam no céu.
A cidade ainda se calava, assustada, com a onda de atentados atribuídos ao PCC dias antes. E, nos dias seguintes, mais de quinhentas pessoas, isso mesmo, quinhentas pessoas, a maioria jovem e sem antecedentes criminais, seriam executadas sumariamente pela Polícia Militar, sem direito a julgamento, sem acusação, sem provas, sem motivos, somente por serem pobres e moradoras das periferias de São Paulo.

2 comentários:

  1. Muito interessante o seu blog. Conheci através da página Viajantes de Katia, uma amiga de longa data. Também gosto de registrar as minhas viagens e vou fazendo uma espécie de diário durante o percurso pois se eu deixar para depois eu esqueço os detalhes. Na ultima que eu fiz foi para Berlim, Praga e Paris e foi uma delicia escrever sobre esses lugares .

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  2. Oi Joseane, obrigado pelo comentário.
    Então somos dois que gostamos de viajar e relatar as experiências vividas.
    Pois publique seus relatos e compartilhe seu olhar sobre os destinos visitados.
    Estive algumas vezes na Europa e publiquei os relatos dessas viagens aqui no blog.
    Leia e comente sempre.
    Abraços!

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