domingo, 5 de dezembro de 2010

do Nepal ao Vietnã (parte 2/7)

...continuação
Iaques transportavam materiais de acampamento durante a travessia das trilhas. Para agilizá-los, além de chutes e pedras, os donos que os conduziam apertavam por trás o saco dos animais, que, imediatamente se acendiam, saltavam e aceleravam o passo. As mulheres sherpas sempre trabalhavam, sozinhas ou acompanhadas dos homens. Muitas conduziam os animais de carga ou negociavam a venda de alimentos nas feiras.
A maioria dos caminhantes dos outros grupos próximos era de franceses. Nunca se comunicavam com ninguém. Não respondiam nem mesmo o “namastê”, a tradicional saudação nepalesa emitida por todos na trilha. Nas raras vezes que abriam a boca, resmungavam algo em francês. E só ficavam entre eles.
À noite o tempo fechou, as nuvens engrossaram, a neve cobriu tudo.
Acordei com princípios de dor de cabeça e enjoo. A curta caminhada até o local do almoço, com subidas leves em terreno nevado e escorregadio, foi de matar. Pareceu-me interminável. Não consegui engolir quase nada na parada. Após cruzar vales nevados, pontes sobre geleiras e campos esbranquiçados pela neve, Lobuche, a 4.950 metros de altitude. Para fugir do frio absurdo, deixei as coisas nas barracas e me enfiei no refúgio, onde conversei com outros caminhantes do mundo.
A tinta da caneta congelou. Peguei outra de dentro da mochila.

E comecei a melhorar diante da lua quarto crescente no céu estrelado. O luar, refletido nas encostas nevadas das montanhas, deslumbrava qualquer um. Retornei mais feliz para a barraca, agora exclusiva. Entrei no saco de dormir e caí em sono profundo. Tinha que consumir muito líquido para amenizar os males da altitude. E era inevitável acordar durante a madrugada para urinar. Eu resistia o máximo possível. Pensava em outras coisas, tentava dormir novamente. Não funcionava. A bexiga queria estourar. Não tinha jeito. Abria o saco de dormir, me vestia todo, abria os dois zíperes da barraca, enfrentava o frio de matar e me aliviava quase ali em frente. Ao levantar os olhos para o céu incrivelmente estrelado, com o luar refletido em todas aquelas imensas montanhas, a sensação de frio logo sumia. Era lindo demais. Beleza ímpar. Eu me hipnotizava diante de tanta perfeição. E nem me apressava para retornar à barraca.
Além do apetite abalado, já não aguentava o odor do óleo das frituras, as terríveis panquecas, o mingau de aveia, de todos os dias e noites. Como alternativa, empurrava vários ovos cozidos, garantindo a qualidade da alimentação e a reposição parcial das energias. E aqueles ovos eram transportados às dúzias por carregadores especiais e exclusivos, chamados de “homem ovo”. Ninguém ousaria tocá-los nas subidas, sob o risco de danificar a carga tão preciosa.
Caminhei por trilhas pedregosas e cobertas de neve. Nada de vegetação por perto. Nem rasteira. Ao redor, montanhas e mais montanhas, altas, nevadas, geladas. A paisagem árida impressionava pela beleza e imponência. Gorak Shep, a 5.160 metros de altitude, não era vila nem nada. Apenas ponto de vários acampamentos e refúgio sujo, fedorento, caindo aos pedaços. As barracas espalhavam-se na planície, branca e gelada. Acampamento alto, isolado e desolador. A latrina externa e coletiva, com o cercado de pedra para proteção do frio e vento, merecia elogios. A parte interna, no entanto, afugentava até os mais desesperados. Havia um buraco profundo e apenas duas barras estreitas e paralelas de ferro para sustentação e equilíbrio. Escorregou ou perdeu o equilíbrio, iria atolar nas merdas dos caminhantes do mundo todo.
As tardes vinham nubladas, com vento, neve, muito frio, sempre abaixo de zero. Mas nada, nem o frio, as nuvens, o enjoo das comidas, a falta de banho, as indisposições deste ou daquele, tiravam a emoção de estar em região única, na cordilheira do Himalaia, com o Sagarmatha (Everest), a montanha mais alta do planeta, bem perto. À tarde subi parte do morro do Kalapatar com a intenção de assistir ao pôr-do-sol. As nuvens não permitiram. Ainda assim o mais alto do mundo aparecia de quando em vez ao lado do Nuptse, ambos iluminados pela fraca luz do entardecer e, depois, também pelo luar. Abaixo a área plana das barracas, branca e nevada.
Praticamente não dormi à noite. Não foram pelos 9 graus negativos dentro da barraca, mas sim pela altitude. O ar rarefeito obrigou o coração a trabalhar muito mais rápido. Acelerei a respiração e não relaxei o necessário para adormecer.

Ainda estava escuro ao começar a caminhada. Amanheceu durante a ascensão na trilha em ziguezague. O sol apareceu e nos iluminou apenas no topo Kalapatar, com a temperatura abaixo de zero. Na sombra, as luvas e gorro amenizavam, mas não resolviam. Ainda ninguém por ali. O cume, a 5.600 metros de altitude e a apenas oito quilômetros do Sagarmatha (Everest). Os picos Nuptse e Pumori, embora mais baixos, conquistavam pela beleza e imponência. Do topo, visão privilegiada de quase 360 graus. Montanhas deslumbrantes, extensas geleiras, lagos, picos e mais picos nevados de diversos formatos. Uma montanha mais afastada, cuja encosta inclinava a quarenta e cinco graus, estava toda branca, cremosa, parecendo sorvete de nata. Demais!
Descida no meio da manhã. De posse dos artigos pessoais no acampamento, continuei. Cruzei rios e riachos congelados, entre as pedras. Acampamento em Tukla, a 4.650 metros de altitude. Muito frio e vento no caminho.
A sujeira no corpo atingia graus alarmantes, críticos. Os cabelos endurecidos e ensebados transformaram-se em blocos compactos, pastosos, pegajosos. O odor azedo nos pés e sob os braços infestavam a barraca. As partes íntimas se tornaram emaranhado de pelos ressecados, imundos, fedorentos. Mas fazia muito frio. E não havia água suficiente para banho. Muito menos quente. Nada disso, porém, preocupava. Ninguém se preocupava. Estávamos em estado de graça diante das maravilhas da cordilheira do Himalaia.
Caminhada em trilha levemente ascendente pelo vale do Chukung. Visão de montanhas diferentes até então, muito gelo e pedras, rios parcialmente congelados. Chegada ao acampamento, a 4.730 metros de altitude, ao longo de outro vale, o terceiro explorado na travessia. Tomei com prazer a sopa com ovos. Qualquer coisa menos as frituras, o odor das frituras.
Encontro com outros brasileiros caminhantes.
Fazia frio criminoso no começo da caminhada antes do amanhecer. Ainda estava muito escuro e minhas mãos e pés pareciam congelados, dada à falta de articulação e liberdade de movimentos. Eu vestia todas as roupas disponíveis, duas luvas, o casaco forrado com pena de ganso. Nem mesmo o nascer do sol amenizou a sensação térmica. Atingi cedo o alto da crista, a 5.380 metros de altitude. A vista era magnífica. A enorme parede do Lotse, se elevando a cerca de 90 graus, impressionava bem à frente. Outras montanhas, como o Pumori e o Amadablan, erguiam-se mais ao longe, acompanhadas de extensas geleiras. O frio não arrefecia e continuava vestido feito astronauta. No meio da manhã começou a nublar e tive que descer.

Descida até Dimboche, a 4.350 metros de altitude. A temperatura tornava-se suportável à medida que baixava a altitude. Ainda assim houve neve e vento gelado contra. O cenário parecia entorpecer. Eram tantas montanhas nevadas durante todos aqueles dias que me sentia acostumado e integrado à paisagem.
Um típico estadunidense, com físico de touro e cérebro de ameba, cismou de humilhar um dos membros da própria equipe de apoio. O energúmeno apontava o emblema na camiseta e não admitia que o sherpa desconhecesse o time de basquete correspondente. Descontrolado, ainda fazia brincadeiras preconceituosas e de mau gosto, dando espetáculos de racismo e prepotência. Talvez concluísse que seria necessário o país dele, em um dos passatempos favoritos, bombardear o Nepal para sanar aquela “situação”.
O percurso no dia seguinte foi longo e tranquilo, com poucas subidas e descidas, entre trechos arborizados e sombreados da floresta encantada de rododendros. Os rios eram mais caudalosos, embora ainda acidentados. Descida até Tengboche, a 3.800 metros de altitude, um amontoado de refúgios e pousadas ao redor do mosteiro budista, gompas e estupas. Muitos turistas por ali, sobretudo para assistir ao festival budista marcado para aqueles dias. Eram barracas para todos os lados sobre piso desgastado. Acampei no gramado levemente inclinado para o vale. Bem à frente, depois da depressão do vale, o caminho ascendente em direção às montanhas do Lotse, Nuptse e Sagarmatha (Everest).
E depois de doze dias de sujeira encardida voltei a tomar banho, o segundo e último em vinte dias de travessia. Paguei por dez litros de água quente. Tive que correr para tentar tirar parte da porcaria, naquela altura já grudada no corpo. A sensação de leveza e bem estar, de poder vestir roupas limpas, era animadora. Mas a emoção gratificante de ter realizado a travessia deslumbrante pelas montanhas nevadas me provocava alegria ainda maior.
À noite aconteceu festa improvisada por um grupo de irlandeses até bem tarde da noite. Não faltaram bebidas e gritarias. Os sherpas também organizaram confraternizações. Beberam umas e outras, surgiram bate bocas, e chegaram às vias-de-fato. Um deles atingiu a nuca do outro com o lampião. O ferimento não foi grave, mas o agressor foi sumariamente demitido pelo sardar da equipe.
Acordei sob a temperatura pouco abaixo de zero. Finalmente, em altitude mais suave, a fome voltou com todo o gás. Detonei no café da manhã, não deixei pedra sobre pedra. Aquele apetite descomunal tirava o atraso de vários dias. Meu estômago e a saúde em geral agradeciam.
Estendi o isolante na grama, ao ar livre. Deitava e ficava entregue à preguiça. Pelo menos até as nuvens cobrirem o sol e bater o vento gelado. Nas imediações das barracas pastava um iaque completamente doido. Os chifres estavam cortados, não trabalhava mais, perambulava para cá e para lá. De vez em quando, sem ninguém esperar, apresentava ataques histéricos e desembestava a correr, aos berros.
Os sherpas percorriam o caminho entre as barracas e o rio carregando pesadíssimos latões com água. Ainda assim, passavam com o sorriso nos lábios. O mesmo acontecia nas trilhas, quando carregavam cargas superiores a sessenta quilos. As cestas se sustentavam apenas pela tira de tecido alçada sob o queixo dos carregadores.

À tarde houve prévia da cerimônia budista do Mani Ringdu dentro das dependências do mosteiro. Espetáculo extremamente longo, monótono, repetitivo, cansativo. Os monges dançavam em círculos, desenvolviam movimentos lentos, ao som de cornetas, longas e graves, pratos e gongos. O público, que disputara os melhores lugares no início da cerimônia, lentamente se retirava. O vento e a neve forte trouxeram umidade e mais frio.
Mais um dia ideal para relaxar, tomar sol, conversar, apreciar o visual magnífico da cordilheira. A cerimônia de oferendas ocorreu ao lado do mosteiro, na parte da tarde. O Lama entregou pequenas bolas pastosas e bolinhas avermelhadas aos devotos em troca de contribuições “espontâneas”. Os agricultores também ganharam dinheiro, presentes, comida. As cenas fluíam de maneira arrastada, silenciosa, sonolenta. Havia mais turistas, ávidos por fotos, que moradores ou fiéis.
Durante a madrugada, mais músicas de dentro do mosteiro, vindas de cornetas, agudas e graves, gongos, pratos e outros sons. Ao entrar no saco de dormir, houve pânico pela corrida desenfreada dos iaques próximos às barracas. Passaram perto sem atingir ninguém.
Os monges fantasiados e mascarados dançaram dentro mosteiro no dia oficial do festival. A mesma lentidão e monotonia. No início os espaços se ocuparam por turistas que se acotovelavam para ver e fotografar. O tempo passava. A maioria logo debandou. Até o Lama maior, sentado e vestido a caráter na parte superior, se entediou e adormeceu. Por pouco não caiu de lado e deitou.
Hora da partida de Tengboche. A trilha desceu o vale profundo e subiu até a graciosa vila de Kunjung, a 3.700 metros de altitude. Acampei em meio às casas nas encostas das montanhas, picos nevados, cercas de pedra, extensos gramados.
Noite de despedida da equipe de sherpas. Passamos o chapéu, juntamos algum e entregamos. Aceitaram tímidos, mas alegres. Momento simples e comovente, como pediam os nepaleses.
Bem cedo, com temperatura de 5 graus negativos, rumo à pista de terra batida, para o embarque em helicóptero até Kathmandu.
Retornei ao hotel com o desejo de permanecer horas sob o chuveiro. Me ensaboei e me enxaguei várias vezes, até que a água preta que escorria para o ralo desaparecesse. Fiquei até mais leve. Afinal foram vinte dias com apenas dois banhos precários.
Vinte dias de caminhada pela cordilheira do Himalaia. Ainda estava em estado de graça.
continua...