quarta-feira, 1 de abril de 2026

Rússia (ferrovia Transiberiana), Mongólia e China (parte 1/8)

Finalmente eu percorreria a sonhada ferrovia Transiberiana, e de ponta a ponta, todos os nove mil duzentos e oitenta e oito quilômetros, de Moscou a Vladivostok. E, depois de explorar parte da Rússia, emendaria em viagens à Mongólia e à China.

Mergulhei em inúmeros livros sobre o passado e o presente da Rússia, sem esquecer a literatura. Entre eles, li Exército de Cavalaria, de Isaac Bábel, O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov, O Retorno, de Andrei Platonov, Os Russos, de Ângelo Segrillo, Uma História Cultural da Rússia, de Orlando Figes, O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksiévitch. Decidi ler também A Fronteira, de Erika Fatland, para o qual a jornalista norueguesa percorreu toda a imensa fronteira terrestre da Rússia no sentido anti-horário. Apesar do percurso extenso e ambicioso, a dita cuja impregnou o texto com a já manjada distorção política dos países do Otanistâo e, sobretudo, do imperialismo estadunidense. Ela se mostrou incapaz de enxergar a realidade, histórica e presente, sem a viciada lente da parcialidade geopolítica da qual faz parte.

Além de todas essas informações colhidas nos livros, eu não esqueci o que já havia na minha memória sobre a Rússia, em especial a partir da leitura dos clássicos da literatura do século XIX, da história da revolução russa de 1917, das décadas do período soviético.

Havia a guerra da Ucrânia, organizada e financiada pelos EUA e pelos países do Otanistão, provocando ataques esparsos de drones às imediações de Moscou. Também ocorreram mais agressões de mísseis do regime sionista de Israel, em aliança com aquele regime terrorista ao norte do México, contra o Irã, forçando o fechamento temporário do aeroporto de Doha, no Qatar, justamente onde eu faria a conexão de voos entre São Paulo e Moscou, na ida, e entre Beijing (Pequim) e São Paulo, na volta.

O avião grande e lotado decolou com atraso naquele final de agosto. Não preguei o olho durante a noite. Engoli todas as refeições comíveis. Li Memória do Chão, de Marcelo Labes.


Desembarquei na manhã seguinte em Doha, Qatar, sob a sensação térmica beirando 50 graus do lado de fora do aeroporto.

No segundo voo, de Doha a Moscou, cochilei bastante. A comida daquela empresa aérea começava a enjoar e tive que empurrar para não ficar vazio.

Filas longas na migração do aeroporto Sheremetievo (SVO) em Moscou, onde desembarquei no meio da tarde, seis horas à frente do horário de Brasília.

Instalei o chip russo no celular. A internet acessava páginas locais ou, necessariamente via VPN, páginas estrangeiras que estavam bloqueadas pelo regime estadunidense e pelos países do Otanistão. As sanções desses regimes também impediam o uso de cartões de crédito internacionais na Rússia. Tive que adquirir rublos em espécie para o meu período de permanência no país.

À noite jantar em restaurante armênio ao lado do hotel. Comi pouco, não bebi álcool, praticamente não conversei. A zonzeira, a diferença de fuso horário, o cansaço da viagem longa em dois voos e o sono atrasado definiram minha vontade medonha de deitar numa cama.

Dormi direto, com sonhos nítidos, esquecidos imediatamente ao acordar com o despertador do celular, sem o qual eu permaneceria apagado por horas e horas.

Saída às ruas de Moscou, se utilizando de várias linhas de metrô. Parei e apreciei, fascinado, as famosas e suntuosas estações moscovitas, ricamente decoradas com lustres, mosaicos, esculturas, vitrais, altos-relevos, bustos, pinturas, todas diferentes entre si, cada uma ostentando a própria beleza e elegância. Profundas e acessadas geralmente por apenas um e extenso lance de escada rolante, as estações também foram usadas como abrigos antiaéreos durante as guerras de agressão estrangeira à Rússia.


Na superfície explorei a praça Vermelha e o Kremlin, a igreja de São Basílio, entre tantas outras construções seculares. Dentro do complexo histórico do centro de Moscou observei, após breve fila, os interiores do mausoléu onde se encontra o corpo de Lenin. Circulei a pé, como deve, pela região. Contemplei o rio Moscou, os inúmeros teatros, os hotéis históricos, os interiores do Gum, centro de compras secular, o vaivém de moscovitas e visitantes, a presença de policiais armados e apostos para defender a cidade de possíveis ataques terroristas.

Almoço em restaurante de comida russa em frente ao antigo prédio da KGB. A decoração interna do estabelecimento, baseada em fotos e objetos antigos, referentes às guerras nas quais o país se envolveu nos séculos anteriores, aqueceu a refeição na base de saladas, arenques defumados, o borsh, sopa quente e ricamente temperada, estrogonofe de sabor similar aos do Brasil, que imitara a receita russa quase um século antes, e melancia de sobremesa. Hidratei a refeição básica com vodca e suco de frutas vermelhas, o morse. O pianista brasileiro morador de Moscou apareceu para conversar e matar saudades dos brasileiros e da língua portuguesa.

À noite, mais metrô para o jantar abundante e saboroso em restaurante da Coreia Popular, também conhecida como Coreia do Norte. Doses de vodca e goles de água mineral auxiliaram a me deliciar com os diversos pratos condimentados da culinária coreana.

Na manhã seguinte, novamente o eficiente e extenso metrô de Moscou levou à distante Exposição de Conquistas da Economia Nacional, VDNKh na sigla transliterada do russo. Trata-se de imensa área contendo grandes pavilhões dedicados às antigas quinze repúblicas soviéticas. Em cada um deles, artesanato, museu, vídeos, lojinhas, comes e bebes típicos. Em outro pavilhão, museu Cosmonauta sobre as conquistas espaciais da URSS e, posteriormente, da Rússia. Também ali maquete ampla e detalhada da cidade de Moscou. Era gigantesca cidade cenográfica, organizada, turística e familiar. Além das visitas guiadas, bastante tempo livre para circular pelo espaço aparentemente infinito.

Escolhi comer em restaurante no pavilhão da Bielorrússia. Fui de panquecas planas de batata com diversas coberturas, salgadas e doces. Em seguida, no pavilhão da Armênia, relaxei com conhaque armênio e doce substancioso.


Ônibus à estação ferroviária Kazanskiy voksal, que leva o nome da primeira parada da longa travessia da Transiberiana, Kazan. Embarque noturno em cabine de segunda classe, contendo vagas para quatro pessoas em dois beliches. Na mesa interna da cabine, tira-gostos e água mineral de cortesia, mais jantar encomendado à chefe do vagão, na base de peito frango amassado ao molho de tomates com batatas.

Durante a madrugada, paradas de quinze a trinta minutos em estações intermediárias, permitindo descer, esticar as pernas e circular pela plataforma.

Acordei antes do amanhecer. Os banheiros das extremidades do vagão se encontravam sempre limpos, supridos do necessário, sabonete líquido, papel higiênico, papel toalha, água corrente, fria e quente, na pia e no vaso sanitário. Do lado de fora, amanhecia entre florestas, casinhas isoladas, estradas vicinais.

Desembarque no começo da manhã em Kazan, no Tartaristão.

Ainda pela manhã saída para longo e delicioso passeio a pé pelos calçadões floridos do centro de Kazan. Fazia frio e caía garoa intermitente. O capuz do casaco protegeu da umidade. Passamos pela universidade onde Lenin estudou e foi expulso por se rebelar contra o autoritarismo interno. Nas imediações, estudantes universitários desejavam se comunicar, mas sem falar ou entender inglês. Mímicas e expressões faciais auxiliaram a quebrar o gelo e a trocar informações básicas. Cidade do interior, com mais de um milhão de habitantes, de maioria muçulmana, Kazam reservava moradores sorridentes e simpáticos.

Almoço em restaurante de comida contemporânea. A frequência seguia a linha da casa, excessivamente bem-vestida e produzida como que para o evento do ano. Elas, vestidas para matar, exageravam nos detalhes visuais.

Em outro ambiente, também ricamente decorado na margem de lago, comi sobremesa substanciosa, para compensar a pouca comida do almoço, e bebi café saboroso.

Seguimos a pé ao Kremlin, a fortaleza de Kazan, onde fomos recebidos e guiados por cinquentona magra, simpática, elegante, de lenço na cabeça, divertida, cheia de caras e bocas, feito atriz amadora. Nos interiores da fortaleza, a robusta mesquita, a maior da cidade.

À noite, metrô até o local do circo municipal, instalado em construção de concreto, ampla, moderna, robusta, arrojada. A apresentação circense, itinerante pelos corredores e andares do espaço, continha bastante texto, em russo, claro, e marcou pela leveza e simplicidade. Bom público prestigiou o espetáculo de meio de semana.

No caminho de volta abasteci o estômago com crepe tártaro e chá de jasmim.

Me esbaldei no café da manhã do hotel. Iogurte, acrescido de abacaxi em calda, grãos achocolatados, mais pães, queijo, ovos cozidos, café, leite.

Exploração detalhada da cidade de Kazan, e sempre a pé. Visita à casa onde Lenin morou com a família no final do século XIX. Exposição de fotos, objetos pessoais, livros, lidos e escritos por ele, pinturas representando os momentos cruciais, como aquele em que ele, à frente de outros estudantes, desafiou o autoritarismo dos professores e dirigentes da universidade.


Nas imediações do bairro, casas térreas, sobrados, a maioria erguida em madeira, dotada de janelões tipicamente russos, enriqueciam a caminhada por aquela parte de Kazan. A caminhada prosseguiu pelos arredores do centro da cidade, atravessando praças, frontais imponentes de teatros, mais exemplares de casas autenticamente tártaras, até alcançar o mercado municipal.

Almocei em restaurante de comida uzbeque. Pelos corredores do mercado me abasteci de itens que eu precisaria nos próximos trechos da ferrovia Transiberiana, oferecendo ou não o vagão-restaurante nas composições. Comprei chá em saquinhos, pão tártaro substancioso, lámen de fabricação chinesa. Somado aos três sanduíches preparados durante o café da manhã do hotel eu estaria preparado para enfrentar o percurso até o próximo desembarque.

À tardinha, pelo tradicional bairro tártaro, percorri ruas tranquilas e bucólicas, ao lado de casinhas de madeira coloridas, do comércio local, escolas infantis, mesquitas, tendo ao fundo o lago da cidade de Kazan.

Jantei em restaurante de comida georgiana. Duas doses de vodca, carne de porco com molho de queijo e cogumelos, batatas coradas. A frequência animada incluía jovens excessiva e artificialmente produzidas, parecendo bonecas de plástico.

Ônibus à estação ferroviária de Kazan e embarque à meia-noite em mais um trem pela Transiberiana.

Me instalei no beliche superior da cabine para quatro pessoas. Adormeci imediatamente. Nem dei bola para as oscilações da composição ou para os ruídos constantes de pancada contra os trilhos.

Já no fuso horário de mais duas horas em relação a Moscou, despertei cedo. Abri a mochila de ataque e tracei os três sanduíches preparados no café da manhã do hotel de Kazan, recheados de presunto, queijo e geleia.

Mais tarde solicitei o copo e o suporte metálico finamente trabalhado em metal à chefe do vagão, a uzbeque loira e cheiinha que queria aprender inglês e português. E eu tentando, aos trancos e barrancos, aprender russo. De vez em quando ela circulava pelo vagão e, se dirigindo ao interior das cabines, tentava vender lembrancinhas e bilhete de loteria. Coloquei o saquinho de chá de gengibre no copo e o preenchi de água quente, servida à vontade nas torneiras da extremidade do vagão.

Inúmeras paradas em estações intermediárias, ao lado de cidadezinhas com casas de madeira e telhados coloridos, igrejas ortodoxas de cúpulas aceboladas e geralmente douradas. Em Drujinino, desci para esticar as pernas, explorar os exteriores, andar pela plataforma, observar os demais passageiros russos, registrar flagrantes do cotidiano local.

Mais tarde recorri novamente aos comestíveis guardados na mochila de ataque. Me servia da infalível água quente da extremidade do vagão para o preparo dos chás e outras comidinhas. Almocei lamen de fabricação chinesa, em porção farta e apimentada, acompanhado de nacos do consistente pão tártaro.

Desembarque na cidade de Ecaterimburg no meio da tarde.

Sob a garoa fina e teimosa, caminhada pelo centro de Ecaterimburg. No trajeto, calçadões e margem de lagos, a avenida Lenin, a imponente sede da prefeitura em estilo estalinista. Do outro lado da avenida se erguia a estátua de Lenin. Visita aos interiores da igreja do Sangue dos Santos, voltada para o absurdo de cultuar os membros da família do último tsar, carrasco do povo russo antes da revolução soviética.

A chuva fina não dava tréguas. Jantei em jeitoso restaurante de comida russa. Fui de vodca dupla, patês variados com pão preto russo, pelmeni recheado de carne de porco com raiz forte, torta de cereja de sobremesa. Atendimento simpático e eficiente dos garçons e garçonetes naquele restaurante refinado, mas com frequência nem tanto, a maioria aparentemente da nova elite endinheirada da burguesia russa.

Os russos tomam café da manhã como se fosse o almoço, ou a principal refeição do dia. Engolem de tudo, carnes variadas, carboidratos como arroz e massas, saladas temperadas, entre tantos itens salgados e substanciosos. Preparei os três sanduíches de sempre, bem recheados, para levar no trem logo mais à noite.

Sob o céu azul, por avenidas largas, arborizadas, atravessando parques, alamedas, prestigiadas pela população em dia de domingo, alcançamos o museu Militar da Guerra Patriótica. Textos, sons, imagens, sobre a vitória da União Soviética sobre os nazistas. Tocante nos momentos do curta-metragem exibido, e também da palestra da guia russa sobre o painel horizontal que mostrava, dinamicamente, os avanços, os recuos, a derrota final dos invasores do exército nazista. E tinha como pano de fundo a gravação da voz marcante do locutor oficial da URSS daqueles tempos.

Avançando a pé por mais zonas humanamente urbanizadas, cujas avenidas exibiam bondes e ônibus do transporte coletivo, o almoço em restaurante típico georgiano, disparadamente dos ambientes mais animados da Rússia. Comi bem prato com carne de porco, legumes, batatas, em quantidade e qualidade excelentes.

Quase ao lado do restaurante, Museu de Arqueologia, com destaque para o mais antigo símbolo de adoração em madeira fabricado pelo ser humano, datado de mais de onze mil anos. Expostos também artefatos humanos encontrados e reproduções de cenas da vida cotidiana das populações originárias da Rússia.

A partir da cidade de Kazan, revelando o afastamento das megalópoles e mergulho no interior do país, mais sorrisos e olhares amistosos dos moradores, aumentando e esquentando o entusiasmo da viagem.

À noite, partida em trem para Novosibirsk com chuveiros em cada vagão, além dos banheiros habituais.

continua...